A Vaga Era Inclusiva... Até o Primeiro Olhar
Era uma manhã úmida na Selva S.A. quando o Beija-Flor da Comunicação Interna anunciou com euforia:
— “Tem vaga nova no tronco da inovação! Empresa inclusiva, clima leve, cultura diversa!”
Mas bastava ler o edital de folhas verdes para perceber:
⚠️ “Boa dicção, disponibilidade para viagens, excelente comunicação verbal, agilidade e 100% de presença física na sede.”
A Arraia Visual, uma das mais criativas da floresta, recuou com o coração afundado.
— “Dizem que são inclusivos, mas escrevem para excluir...”
Enquanto isso, a Onça Libras, bilíngue em Libras e fauna, candidata a analista de talentos, tentava se inscrever pela plataforma digital.
👉🏻 Mas o portal da empresa não tinha leitor de tela.
👉🏻 Nem botão de acessibilidade.
👉🏻 Nem espaço para vídeo de apresentação em língua de sinais.
— “A floresta quer o diferente, mas não suporta sair do igual”, murmurou a Onça.
O Tamanduá Técnico, com deficiência auditiva leve e vasta experiência em sistemas, foi chamado para entrevista.
Chegando lá, a recrutadora cochichou:
— “Trouxemos só pra cumprir cota.”
E quando ele pediu que repetissem a pergunta devagar, ouviu:
— “Ah, esquece... próximo!”
Na roda do dia seguinte, o Tatu de Dados, consultor sênior com nanismo, compartilhou:
— “Fiz três entrevistas. Em todas, quiseram saber como eu alcançaria as prateleiras.
Mas ninguém perguntou como eu levantei a produtividade das últimas quatro árvores.”
A Arraia Visual tentou uma nova inscrição.
O algoritmo da plataforma eliminou seu currículo porque “não batia com a média de fluência verbal”.
Sim, o sistema que se dizia inclusivo... nunca foi treinado pra identificar capacidade. Só normalidade.
Falas Potentes da Selva:
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Arraia Visual: “Minha deficiência nunca atrapalhou meu trabalho. Mas sempre assustou quem só enxerga com os olhos.”
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Onça Libras: “Acessibilidade não é uma rampa. É uma cultura.”
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Condor Tecnico da Eletrica: “Não quero caridade. Quero processo equitativo”
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Tatu de Dados: “Quando a floresta define talento por altura e fala... ela perde muito mais do que imagina.”
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Beija-Flor da Comunicação: “Dizer que é inclusiva na vaga... não faz da empresa diversa. Faz dela contraditória.”
Gavião Baixo-Vidente: “Se a vaga exige olhos padrão, a floresta perderá toda visão de futuro.”
Tuiuiú Libras: “Meu silêncio é só sua falta de escuta.”Tamanduá Sem Palavras: “Escrevo o que muitos não têm coragem de dizer: não somos invisíveis, vocês é que ainda olham por cima.”
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Quati da Lógica: “Inclusão não é selo. É estrutura. E estrutura se constrói, não se decora.”
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Formiga de Gestão: “Cotas sem consciência viram vaidade. A selva precisa de verdade.”
📊 Realidade que a floresta ignora:
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Segundo a BBC Brasil (2023), mais de 60% das pessoas com deficiência relatam discriminação ou despreparo dos recrutadores durante entrevistas.
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A Lei de Cotas (Lei 8.213/91) exige que empresas com mais de 100 funcionários destinem de 2% a 5% de seus cargos a pessoas com deficiência. Mas menos de 1% das vagas formais são, de fato, ocupadas por esse grupo.
- Plataformas de emprego e IA ainda excluem candidatos com deficiência por critérios automatizados baseados em padrões corporativos ultrapassados.
- 55% dos trabalhadores com deficiência estão na informalidade.
- A renda média de pessoas com deficiência é 30% menor que a das sem deficiência.
- Uma pesquisa do IDP (2022) mostra que 70% das pessoas com deficiência têm ensino médio ou superior completo, mas ainda enfrentam obstáculos técnicos e culturais para contratação.
- 80% dos profissionais com deficiência avaliam que as empresas não estão preparadas para recebê-los.
🎙️ Análise Final por Antoniel Bastos
“Chamam de inclusão o que é, na verdade, encenação. Colocam rampa na entrada, mas mantêm a porta trancada com códigos velhos. Dizem que são empresas humanizadas, mas seus algoritmos desumanizam no primeiro clique.”
O que vemos na Selva S.A. é a repetição de uma falsa evolução: empresas que falam bonito e agem igual.
A verdade é que a floresta corporativa ainda tem medo do diferente. Mas disfarça esse medo com a palavra “adaptação” como se adaptar fosse concessão, e não obrigação.
👉🏻 A deficiência nunca esteve na pessoa.
👉🏻 Está na cultura.
👉🏻 No processo.
👉🏻 No formulário que não lê Libras.
👉🏻 Na entrevista que julga o corpo antes de ouvir a mente.
A vaga é só o começo. Mas se o caminho até ela for feito de exclusão, não há currículo que resista.
A inclusão começa antes do clique. Começa no algoritmo, na mentalidade, na liderança. Porque o que chamam de “vaga inclusiva” só será real quando o processo inteiro for acessível não só na lei, mas na floresta inteira.
Antoniel Bastos - Presidente da Rede Incluir, jornalista (MTB 00375/RJ), escritor e Coach em Desenvolvimento Humano (Universidade Anhanguera - SP). Minha expertise se estende ao Marketing Digital (Pós-Graduação Unisignorelli - RJ) , líder de iniciativas de Diversidade e Inclusão como Diretor de RH da ACIJA - Associação Industrial e Comercial de Jacarepaguá e Gestor de Relacionamento Estratégico do Grupo Tokke - Gestão de Qualidade de Vida.
Meus parabéns, leitura maravilhoso 👏🏻👏🏻👏🏻
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