Crônicas da Selva S.A - Os Sete Moradores do Condomínio Selvagem

 

Na Selva S.A., onde o mato foi domado por cercas elétricas, placas de “propriedade privada” e portões automáticos, nasceu o condomínio mais civilizado da floresta. Ou pelo menos, assim diziam no folder da construtora.

O problema é que, por trás dos muros altos e dos interfones modernos, moravam sete tipos de animais que você certamente já viu e talvez seja um deles.

E quando a assembleia é convocada, aí sim a natureza dos bichos aparece com força.

1. A Coruja Conselheira (sabichona e omissa)

Ela lê toda a convenção do condomínio, estuda as atas, consulta jurisprudência. Opina sobre tudo, mas nunca se envolve. É o oráculo passivo da floresta murada.

“Na cláusula 14B, está previsto que a grama deve ter no máximo 3,5 cm. Mas façam como quiserem…” — Coruja, com voz baixa e tom superior.

2. A Raposa Espiã (observa tudo, mas age nas sombras)

Nunca foi vista na área comum, mas sabe o que cada morador fez, comeu, falou e deixou de pagar. Tem vários prints, inclusive do que você escreveu no grupo e depois apagou.

“Eu só observo… por segurança da comunidade, claro.” Raposa, deitada na sombra com um celular cheio de prints.

3. O Tamanduá Reclamão (eternamente insatisfeito)

Nada agrada. O barulho da cascata da piscina atrapalha o sono. O cheiro do churrasco afeta sua dieta. A vaga de visitante “não é bem posicionada”.

“Isso aqui tá virando selva!” Tamanduá, ao receber o boleto do condomínio com 3 reais a mais.

4. A Tartaruga Inadimplente (devagar com os boletos)

Sempre promete pagar “até sexta”. Só não disse de qual mês. Aparece sorridente nas festas, mas desaparece quando o assunto é contribuição.

“Tô esperando cair o benefício do meu sobrinho que trabalha com inovação.” Tartaruga, com copo de suco e ar de tranquilidade.

5. O Gavião Solitário (fiscal da vizinhança)

Mora no bloco C, mas vigia o A. Ninguém o vê, mas ele vê tudo. Só aparece pra reclamar. Fala que “ninguém respeita” e que o condomínio está perdido.

“Na minha época, vizinho era vizinho, não DJ de varanda.” — Gavião, enquanto ajusta a câmera de segurança pessoal.

6. A Formiga Empreendedora (trabalha muito, vive pouco)

Tem três negócios online, dois freelas e um bazar no hall de entrada. Vive ocupada, mas reclama que ninguém ajuda. Carrega o mundo nas costas, mas não aceita dividir a carga.

“Fiz isso tudo sozinha! Só eu presto aqui.” Formiga, com dois celulares, fone no ouvido e mochila de entrega nas costas.

 

7. O Bicho-Preguiça Zen (espiritualizado e desligado)

Leva a vida no ritmo das árvores. Reclama da pressa alheia, da negatividade e da "energia densa do grupo do WhatsApp". Sempre sugere meditação e palo santo.

“Vamos alinhar as vibrações antes da próxima reunião?” Bicho-preguiça, aromatizando o corredor com incenso de mirra.

Frases que ecoaram entre os blocos da Selva S.A.:

  • “Ninguém quer cuidar, mas todo mundo quer mandar.” - Coruja

  • “Eu só vejo. Porque quem vê, protege.” - Raposa

  • “Pago caro demais pra viver cercado de bicho folgado.” - Tamanduá

  • “Festa eu vou. Boleto eu ignoro.” - Tartaruga

  • “Só quero paz. E silêncio absoluto a partir das 18h.” - Gavião

  • “Trabalhar cansa, mas confiar nos outros cansa mais.” - Formiga

  • “A reunião de condomínio precisa de mais incenso e menos gritaria.” - Bicho-Preguiça

Análise final Por Antoniel Bastos: “Condomínio: o zoológico que finge ser civilização”

Se Arnaldo Jabor escrevesse sobre condomínio, ele diria: “O condomínio é a utopia do controle: um lugar onde queremos civilidade, mas odiamos conviver.”

É a caricatura do Brasil de muros altos e almas trancadas.
Todos desejam paz desde que o outro não respire alto demais.
Todos falam em empatia desde que não incomode o elevador social.

Os moradores da Selva S.A. refletem a nossa condição moderna: Cada um com sua verdade absoluta, seu conflito inegociável e sua caixinha de som emocional. O Tamanduá é o brasileiro que só reclama. A Tartaruga é o que promete, mas some. A Formiga trabalha tanto que esquece de viver. E o Gavião? É o fiscal da liberdade do outro.

E a gente segue assim, cercado de câmeras, grades, códigos de convivência e… silêncios.

A selva virou condomínio. Mas os bichos continuam sendo bichos.

Antoniel Bastos - Presidente da Rede Incluir, jornalista (MTB 00375/RJ), escritor e Coach em Desenvolvimento Humano (Universidade Anhanguera - SP). Minha expertise se estende ao Marketing Digital (Pós-Graduação Unisignorelli - RJ) , líder de iniciativas de Diversidade e Inclusão como Diretor de RH da ACIJA - Associação Industrial e Comercial de Jacarepaguá e Gestor de Relacionamento Estratégico do Grupo Tokke - Gestão de Qualidade de Vida. 

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